Quando o samba acabou
Noel Rosa
Bem em frente a ribanceira
Uma cruz a gente vê
Quem fincou foi a Rosinha
Que é cabrocha de alta linha
E nos olhos tem seu não sei que
Numa linda madrugada
Ao voltar da batucada
Pra dois malandros olhou a sorrir
Ela foi se embora
Os dois ficaram
E depois se encontraram
Pra conversar e discutir
Lá no morro
Uma luz somente havia
Era lua que tudo assistia
Mas quando acabava o samba se escondia
Na segunda batucada
Disputando a namorada
Foram os dois improvisar
E como em toda façanha
Sempre um perde e outro ganha
Um dos dois parou de versejar
E perdendo a doce amada
Foi fumar na encruzilhada
Passando horas em meditação
Quando o sol raiou
Foi encontrado
Na ribanceira estirado
Com um punhal no coração
Lá no morro uma luz somente havia
Era Sol quando o samba acabou
De noite não houve lua
ninguém cantou
Piston de Gafieira
Billy Blanco
Composição: Billy BlancoCom muita gente dando volta no salão
Tudo vai bem, mais eis porém que de repente
Um pé subiu e alguém de cara foi ao chão
Não é que o Doca é um crioulo comportado
Ficou tarado quando viu a Dagmar
Toda soltinha dentro de um vestido saco
Tendo ao lado um cara fraco, foi tirá-la pra dançar
O moço era faixa preta simplesmente
E fez o Doca rebolar sem bambolê
A porta fecha enquanto o duro vai não vai
Quem está fora não entra
Quem está dentro não sai
Mas a orquestra sempre toma providência
Tocando alto pra polícia não manjar
E nessa altura como parte da rotina
O pistom tira a surdina
E põe as coisas no lugar
Quando o samba acabou com Leila Pinheiro (o acompanhamento da cuíca é sofisticadíssimo):
http://www.youtube.com/watch?v=VTAaODJNqfo
Píston de Gafieira, com Jorge Veiga:
http://www.youtube.com/watch?v=yUSKnwdSA6g
Acho o primeiro samba, de Noel, uma das suas mais felizes composições, e interpretado por Leila Pinheiro, fica perfeito. Teria que incluí-lo aqui, mas aí lembrei desse outro samba, do Billy Blanco que faleceu a poucos dias, outro grande do samba. Os dois sambas têm em comum o seu caráter narrativo, que sempre me atraiu muito em algumas letras de música. As letras atuais perderam não só em poesia, mas também em prosa. Sim, se pode fazer música em prosa, como prosa de costumes, como narração de uma estória. Os dois sambas são muito bons nos dois aspectos, descrevem a vida boêmia marcada pelo seu conflito com a lei, com a ordem, como é próprio do samba, enquanto música do morro, dos negros pobres do Rio, embora os dois compositores sejam brancos e bem arranjados socialmente. Mas aí já temos outra estória, eram tempos em que não se vivia o apartheid social que vivemos hoje, ser pobre ainda não era crime, apesar de alguns sambistas se envolverem em alguns "casos policiais" e descreverem o malandro como um fora-da-lei. O que é belo na primeira é a forma trágica e romântica como Noel descreve o malandro, aquele que é capaz de morrer por amor depois de disputar a mulata. Há toda uma atmosfera de honra envolvida na descrição.
Comparando a trama amorosa que há nas duas vemos como os dois apresentam a mulher como todo objeto de contenda como uma personagem passiva, já que pertencerá ao que for melhor improvisador no primeiro caso, ou do mais forte, no segundo. No primeiro, na verdade, quem a conquista no final é o perdedor, mas pagando com a vida; na verdade não a conquista, mas conquista sua admiração, não só a sua, mas a de todo morro, "de noite não ouve samba, ninguém cantou" é o espírito do verdadeiro artista capaz de imolar-se por um ideal. Assim na verdade Quando o Samba acabou, na verdade, é uma alegoria, Noel está narrando o "nascimento" do samba, ou seja, a conquista de sua hegemonia como a Música brasileira, o poeta que se apunhala, na verdade é o próprio Noel, esse ideal ele realmente morreu defendendo, e alcançou através de sua postura e de sua obra,o rapaz branco de classe média capaz de subir o morro, aprender com o povo sua cultura, narrar a sua vida, suas misérias e proezas, e tudo isso é claro com o poder transmutador da sua veia poética. Voltando à mulher; como todo objeto de cobiça, também é apresentada como um elemento de desordem, como essa faísca que lança os homens à contenda. Note-se outro paralelismo muito interessante, ao tempo que,no primeiro, a disputa que termina de forma trágica, na verdade, é uma alegoria para demonstrar a paixão, o heroísmo e a honra de que é possível o malandro, tornando essas virtudes como típicas do caráter do malandro, salvando assim socialmente o sujeito e abrindo as portas para a aceitação da sua música pela sociedade como um todo, pela parcela branca. No segundo, é o píston que é usado para ocultar aos olhos da polícia, o conflito que se desenrola, dessa vez pela força. A gafieira é apresentada como um ambiente em que é rotina que se resolvam as coisas por meio da força,mas isso é apresentado de forma zombeteira e nostálgica, não é descrito como crime oculta uma confusão da polícia; a gafieira parece prescindir da atuação da polícia. Parece não haver nada de mais grave ou criminoso nesse ambiente, apenas o fato de alguns se enganarem com relação á sua própria força para tomar a mulher do outro.
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